Eu,
particularmente já tive coleções dos mais
diversos tipos, como latas de cerveja importadas, moedas e até
selos. Lá pelos anos 70, no auge da minha infância,
a moda entre a garotada era colecionar maços de cigarro,
mas eu era tão anti-tabagista, mesmo aos 10 anos de idade,
que me recusava a iniciar tal coleção. Até
bilhetes de metrô entraram no rol das minhas conquistas.
Tenho até hoje o primeiro bilhete do metrô de São
Paulo, da época da sua inauguração, e alguns
outros de outros países. Mas, o que acabou definindo a
minha vida em matéria de coleções, começou
muito sem querer, sem qualquer pretensão.
Era
o ano de 1984, eu era recém-casado, e, diferente da grande
maioria das pessoas (aliás, sempre vou fazer questão
de ser diferente, detesto seguir padrões), eu não
pensava em ter carro, ou comprar uma casa. Esses bens estavam
muito distantes da minha realidade financeira
o que eu queria
mesmo era um brinquedinho recém-lançado, que eu
sabia que usaria muito mais do que qualquer mortal comum. Eu queria
mesmo era um vídeo-cassete.
Eu
encarava aquela maravilha como uma máquina do tempo. Eu
pensava: as pessoas estão usando essa novidade pra alugar
filmes de cinema e ver em casa, mas eu vou querer mais usar a
tecla de REC do que a de PLAY. A TV a cabo ainda não existia,
e eu sabia que algumas das séries e desenhos animados que
me acompanharam durante minha infância e adolescência
poderiam jamais voltar a serem exibidos. Como eu poderia rever
essas coisas quando eu quisesse? E mais, como eu poderia um dia
mostrar isso aos meus filhos? Eis um ótimo uso pra minha
máquina do tempo pessoal.
Assim,
em pouco tempo eu já tinha meu primeiro vídeo, me
lembro bem dele, um Mitsubishi HS318, duas cabeças, mono.
Aliás, vídeo estéreo não existia nem
nos mais avançados sonhos
. E parti para realizar
esse sonho. Comecei a gravar tudo o que me interessava na época,
que se resumia em Os Flinststones, que passava no programa da
Xuxa, e episódios de Jeannie e A Feiticeira, exibidos pela
Bandeirantes. Como eu estava fora durante todo o dia, eu deixava
programado pra gravar sozinho. Logo vi a necessidade de ter um
outro vídeo, assim, eu poderia editar o que deixava gravando,
tirando os comerciais, e poupando espaço nas fitas. Era
uma loucura. Às vezes, deixava os dois vídeos programados,
que chegavam a gravar 12 horas de programas por dia, e quando
eu chegava em casa, ia editar tudo, porque no dia seguinte tinha
mais. Não preciso dizer que não dava conta de fazer
tudo, e as fitas foram se acumulando. E pra ajudar, as emissoras
tiveram um surto de "revival" e começaram a exibir
coisas ainda mais antigas. Quase que eu pirei. Quero dizer, eu
e minha mulher, pois ela também tinha entrado nessa jornada
comigo. Muitas vezes a programação que eu deixava
nos vídeos ultrapassava os limites das fitas, então
ela tinha que trocar as fitas pra mim em horários pré-determinados.
Um
dos episódios mais interessantes nessa aventura toda foi
quando o recém-inaugurado Cartoon Network anunciou uma
maratona de Flintstones. Nós adoramos Flintstones, e essa
era a oportunidade ideal para ter toda a série, já
que eles iam exibir todos os 166 episódios sem parar, por
4 dias seguidos. Não tive dúvidas, primeiro assinei
a TVA (eu nem era assinante), consegui convencê-los a instalar
rapidinho, preparei 36 fitas VHS novinhas e deixei-as enfileiradas
e numeradas. A maratona começou numa quinta-feira, minha
mulher começou a gravar as fitas, Quando cheguei do trabalho,
eu continuei a gravar durante toda a noite. No dia seguinte, eu
enforquei o trabalho, porque precisava dormir, e ela continuou
a gravar. Mais uma vez, durante a noite eu fiz meu turno. Foi
assim até no domingo, quando terminou a maratona. Foi um
trabalho muito cansativo, mas muito gratificante. Naquele momento,
tínhamos toda a série dos Flintstones, com boa qualidade
de imagem, e também em duas línguas, já que
gravando direto do ar, pudemos manter o SAP. Palmas para o meu
velho e bom vídeo Panasonic F66, que aguentou os 4 dias
ininterruptos.
Aquilo
que eu já chamava de coleção crescia rapidamente,
tive que fazer estantes de madeira pra ir colocando as fitas,
as paredes da minha casa começaram a ficar pequenas pra
tudo aquilo
A necessidade de procurar séries e desenhos
raros já me levavam a falar com outros colecionadores,
trocar material, garimpar coisas esquecidas e até conseguir
algumas películas em 16mm dos anos 60, salvando-as de ir
pra fábrica de vassouras.
Nesse
meio tempo, eu e um amigo fundamos o saudoso "
E
No Próximo Episódio
", que se tornaria
conhecido como ENPE, fanzine totalmente artesanal que tratava
de séries e desenhos clássicos. Tínhamos
assinantes em todo o Brasil, e a mídia nos procurava a
todo tempo, seja para entrevistas, ou mesmo para pedir alguma
consultoria em projetos dos mais variados tipos, como comerciais
de TV, ou a inauguração de uma danceteria com motivos
da série A Feiticeira. Nessa época estivemos no
Vitrine, da Cultura, no Fantástico, no Vídeo Show,
no Jô Soares 11:30, no Programa Livre do Serginho Groissman,
e até no Circuito Night & Day, do Celso Russomano.
O que era apenas um desejo de manter para rever os grandes clássicos
da TV já tinha se transformado numa enorme responsabilidade.
Essa
era durou alguns poucos anos, e infelizmente a completa falta
de tempo acabou me afastando aos poucos desse meio. Hoje, o próprio
ENPE já virou item de colecionador, e seus órfãos,
assinantes afoitos pelo Brasil afora, me mostraram que a paixão
pelos seriados e desenhos animados não é tão
absurda assim... A TV a cabo é uma realidade, cada vez
mais somos brindados com exibições de clássicos
que pensávamos nunca mais rever. Mas a arte da arqueologia
televisiva não está morta.
Quanto
mais os novos canais a cabo revivem clássicos dos anos
de ouro da TV mundial, mais definida fica nossa busca por aquele
material que ninguém se lembra... Esta é uma coleção
que nunca terá fim, nunca chegaremos a ter todos os itens
dela, mas talvez essa seja a razão por tanta paixão.